Quando o blues e o rock encontram
a Jovem Guarda e o baião nordestino

Com o álbum ”Ausência”, banda Costume Blue intensifica fusão de gêneros musicais dos Estados Unidos e do Brasil

Misturar o autêntico blues norte-americano com o baião de Luiz Gonzaga e o rock da Jovem Guarda. Esta é a proposta do grupo Costume Blue com o álbum ”Ausência”, o segundo da carreira da banda formada por integrantes influenciados pelos mais diferentes gêneros musicais.

Enquanto o vocalista Marcelo Bulhões, que também assume em algumas faixas a guitarra, o violão dobro e instrumentos de percussão como alfaia e triângulo, traz consigo o sangue nordestino, mais precisamente alagoano, na veia, Cristiano Araújo é o baterista que não esconde sua paixão pelo heavy metal. Aos dois, somam-se a ousadia de Ricardo Marins nos teclados, a pegada soul de raiz de Celso ”Blues” Ferreira no baixo, e a experiência de Alessandro Sá, produtor musical e responsável pela guitarra solo do álbum ”Ausência”. Para os shows, o Costume Blue conta com a irrequieta guitarra do também experiente Rodney Nascimento.

A mescla de diferentes estilos reflete diretamente nas 14 faixas de ”Ausência”. A animada ”Fogo” finca os seus pés nos blues do Mississipi, flertando com o rockabilly e até mesmo o baião. ”Nunca precisamos fazer esforço para essas combinações, para forçar a costura. Já estava tudo ali, fundido”, diz Marcelo Bulhões.

O estilo musical surgido no fim do século 19 também se faz presente na balada ”Se Viesse Voltar”, enquanto a imagem do sertão e do agreste nordestinos aparecem em ”Fuligem” e ”Entulho do Tempo”, nas quais o instrumento dobro, violão típico do blues, faz a vez da viola nordestina. Impossível? Não para a banda Costume Blue que bebe da fonte do blues para experimentar e criar uma sonoridade bastante particular e peculiar.

Filho rebelde do blues, o rock está presente em ”Fósforo”, com influência da Jovem Guarda, e em ”Febre” e ”Contanto que eu Vá”. ”Acho que se alguém quiser classificar nossas composições pode chamar de blues-baião, rock-aboio, rock-xote ou balada-blues-canção-jovem-guarda”, afirma o baterista Cristiano Araujo.

Do disco ”Ausência”, a banda gravou um videoclipe para a canção ”Febre”, com cenas captadas em pontos turísticos da cidade de São Paulo como a praça da Sé, a avenida Paulista e a rua Augusta. ”A ideia do clipe era traduzir em imagens um estado febril, angustiado e mesmo paranoico na metrópole”, diz Rubén Romero, cineasta peruano radicado em Paris que assina a direção do clipe.


História do grupo

O grupo Costume Blue foi formado em 2016 por músicos que buscavam fundir o blues com a tradição da música nordestina da canção brasileira. Os integrantes se conheceram em Bauru, centro do estado de São Paulo. ”É curioso que a gente tenha se conhecido lá. Se São Paulo é uma síntese do Brasil, pois tem gente de toda parte do país, o lugar de maior trânsito cultural, fomos nos conhecer justamente no centro desse território cultural”, especula Bulhões.

A partir desse encontro, perceberam afinidades musicais e começaram a se encontrar já com as cabeças pensando em gravar. O trânsito cultural de Marcelo ”entre Alagoas, Bahia, interior e capital paulistana” parece ter fomentado em Ricardo Marins, Celso Ferreira e Cristiano a disposição em ultrapassar barreiras. Quanto a Rodney Nascimento, o trânsito é mais intenso, migrando do Brasil para a França, onde tocou em clubes de jazz nas regiões de Lyon e Lorraine. Mas antes, o Costume fez uma lição de casa do blues, com o álbum de estreia ”que leva apenas o nome da banda” voltado explicitamente ao gênero afro-americano.

Agora, com ”Ausência”, o Costume Blue dá vazão à proposta de colocar no mesmo pacote gêneros musicais que, a princípio, não se misturariam. ”Isso de misturar gêneros não é nada forçado. É tão natural que nem percebemos tanto na hora de compor. Notamos mais no estúdio, com a criação dos arranjos”, diz Ricardo Marins. E por que misturar o blues a ritmos brasileiros: ”Olha, eu sempre gostei de blues, mas de Luiz Gonzaga também. E de Caetano, Gal, Roberto e Erasmo. O Cristiano gosta de rock pesado, mas também de uma balada de viés jovem-guarda. O Ricardo gosta de Beatles e Bach, o Celso curte James Brow e música caipira. Por que não ”Se a gente respira uma época que quebra fronteiras de vários tipos, por que com a música seria diferente”, reflete Marcelo.


Quem é quem no palco:

Celso ”Blues” Ferreira – baixo
Cristiano Araújo – bateria
Marcelo Bulhões – voz, guitarra, violão dobro, harmônica
Ricardo Martins – piano, teclados e vocal
Rodney Nascimento – guitarra e vocal